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Gastronomia da Serra de Monchique: A Charrette

Gastronomia da Serra de Monchique: A Charrette
Abril 14
09:48 2017

Se há lugares que parecem estar predestinados para o deleite das papilas gustativas e prazeres do espírito, que naturalmente ficam na história pelo arrojo, competência e capacidade em preservar as tradições genuínas da serra, o restaurante A Charrette é indubitavelmente um destes lugares. Trata-se de um templo destinado ao culto gastronómico e ao melhor que os magos da cozinha Monchiquense têm para oferecer, facto comprovado pelos vários galardões já alcançados, onde se conta o prémio “Restaurante do Algarve,” atribuído pela Confraria de Gastrónomos da região.

Armário da antiga mercearia recuperado para a decoração do restaurante

Armário da antiga mercearia recuperado para a decoração do restaurante

Fundado em 1978 através do esforço e perseverança de José António Pedro, nas antigas instalações de uma mercearia, onde curiosamente havia trabalhado enquanto jovem, o restaurante A Charrette apresenta-se com um espaço constituído por duas salas de paredes lisas e com uma decoração marcadamente rústica e acolhedora. Na primeira sala, logo à entrada, posiciona-se um grande balcão de madeira, acompanhado por um conjunto de cadeiras milimetricamente alinhadas e iluminado por lampiões pendurados em correntes, que descem do tecto.

Na parte traseira, a parede de cor bordô é talvez o elemento que mais chamará a atenção, mas rapidamente o olhar é centrado nos dois grandes rodados de carroça que se encontram a desafiar as leis da gravidade. Ainda na mesma sala, ao fundo, não podia deixar de se destacar um comprido e bem recuperado armário, com enormes portas de vidro, que outrora serviu para a arrumação dos produtos comercializados na “defunta” mercearia, e hoje, está ao serviço de uma interessante colecção de finas porcelanas.

Seguindo para a segunda sala, consideravelmente mais esquia e onde a iluminação natural é mais escassa, talvez mereça nota de reparo o belo tecto de madeira, responsável por um ambiente mais acolhedor e intimista. Aqui, a decoração está mais focada nos tradicionais utensílios e artefactos, que em tempos foram utilizados pela população de Monchique, nas mais diversas actividades, e que agora se encontram abundantemente distribuídos através das paredes. Há ainda a destacar a zona de transição entre os dois espaços de refeição, onde uma curiosa colecção de relógios de parede, muito bem alinhados e quase todos ligados às mais diversas marcas de bebidas, nos deixa desde logo com uma excelente impressão: o tempo aqui passado será invariavelmente revelador de experiências a registar para a posterioridade.

Lombo de porco na banha é uma das entradas mais emblemáticas do restaurante

Lombo de porco na banha é uma das entradas mais emblemáticas do restaurante

Depois de sentado e antes de se aventurar por caminhos onde seguramente vai gostar de se perder, poderá vaguear através na infindável ementa que o deixará perplexo com tamanha abundância. Para começar arrisque com a prova de alguns dos petiscos que a tradição teimou em preservar: as azeitonas à Monchique; o mólho, que é um bucho recheado com sangue, carne e arroz; o lombo de porco na banha, que resulta numa interessante forma de refrescar e acentuar o sabor de uma carne extremamente suculenta; a tábua com enchidos de porco preto, onde reinam a chouriça assada e a morcela de farinha (uma espécie de farinheira); ou o presunto de Monchique curado no sal. São apenas alguns dos nomes que pode reter da infindável lista de entradas, onde a principal dificuldade é mesmo a escolha.

Voltando à emblemática ementa, que para os mais assíduos talvez se revele pouco dinâmica, prepare-se para novas dificuldades, sobretudo pelo sugestivo conjunto de nomes que lhe são apresentados. Não menos importante é a obrigatoriedade em reservar, desde já, um espaço para as sobremesas. Lá chegaremos. Digna de registo, a Assadura é um prato de lombo de porco excepcionalmente grelhado, facto comprovado pela suculência e tenrura da carne servida, que depois é fatiada e temperada por um molho feito à base de azeite, alho, salsa e limão; o Cozido de Couve atinge um nível de sabor difícil de quantificar, ao qual não será alheio a utilização da costela de porco preto, salgada prolongadamente antes da cozedura, bem como dos enchidos que têm tudo para ser o orgulho de quem tão delicadamente ousou produzi-los.

Seguem-se a Galinha com Amêndoas, o Feijão com Arroz, a Calatróia, as Costeletas de Javali, o Cabrito Estufado à Charrette, o Churrasquinho de Porco Preto, os Milhos com Feijão, o Cozido de Grão e mais um rol de iguarias que merecem tempo e vontade para uma prolongada degustação. Estão também disponíveis carnes de vaca, borrego e porco preto, essencialmente destinadas à grelha, onde podem ser aplicados vários cortes para bifes, costeletas, espetadas e até para uma bela Posta Mirandesa. Em caso de dúvida, não há problema: escolha qualquer uma das propostas. Surpreendentemente verá que acertou em cheio no prato que procurava.

Para os mais dados aos prazeres do sabor do mar, as Lulas Recheadas à Monchique, outra das especialidades da casa, é também uma das criações que não permite remeter a gula para destinos além-fronteiras. O peixe fresco, proveniente dos mares que se avistam da serra, é variado (linguado, peixe-espada, cherne, corvina, robalo, ou salmonete) e está disponível para cozer, grelhar ou fritar.

Galinha com amêndoas

Galinha com amêndoas

Embora a carta de vinhos não seja muito extensa, apresenta um número variado de propostas e encontra-se bem organizada – por géneros e regiões. O vinho da casa, servido a jarro, é proveniente da região da Amareleja e revela-se suficientemente competente para acompanhar a generalidade dos admiráveis pratos que por aqui são confeccionados. É um vinho encorpado, frutado e envolto em algum virtuosismo.

Nos engarrafados, encontram-se opções com preços suficientemente ajuizados, se bem que haja uma primazia para os mais conhecidos e afamados tintos do Alentejo e Algarve. Mais para norte, o Santa Marta, Quinta do Roriz e Quinta de Cidrô, todos do Douro, a Casa de Saima, da Bairrada, ou a Quinta do Pancas, de Alenquer, são outras das opções a ter em conta. Há ainda a destacar algumas verdadeiras preciosidades, como é o caso do Duas Quintas Reserva, Quinta do Côtto e Barca Velha, tudo néctares na casa dos vinte anos e com capacidade para deixar o Deus Baco em completo estado de delírio.

Chegados às sobremesas, onde a amêndoa, a alfarroba e o figo estão quase sempre em posição de destaque, há que conviver com a profusão de opções e a delicadeza com que a doçaria típica da região é tratada. A vitrina mostra uma confecção cuidada, colorida e de frescura assinalável. O Pudim de Mel, que já valeu um prémio gastronómico ao restaurante A Charrette, é uma obra-prima da inspiração dos seus criadores e apresenta um equilíbrio na doçura e textura que dificilmente esquecerá. Mas há mais!

O Bolo de Tacho, o Bolo de Amêndoa e Gila, a Tarte de Alfarroba ou o D. Rodrigo. E se no final subsistirem dúvidas depois de ler e reler a extensa lista de guloseimas, volta a não haver problema: peça um pedaço de cada uma. Será um prazer prepararem-lhe um menu de degustação. Sem dúvida uma verdadeira perdição para os mais gulosos!

Misto com várias sobremesas da região

Misto com várias sobremesas da região

Para fechar, a tradição manda que não fique indiferente ao copinho de aguardente de medronho ou de um dos muitos licores caseiros com que será presenteado. Aproveite mas não abuse! Até descer a serra há ainda muita curva para vencer.

Embora as doses servidas não façam inveja a outras regiões do país, sobretudo quando se aponta à quantidade, é indubitável a qualidade e competência culinária com que os clientes são servidos.

O preço poderá não ser o mais simpático para algumas bolsas, sobretudo nos tempos que correm, mas acredite que vale bem o esforço. Aponte para um valor entre os 20 e 25 euros por pessoa e para a necessidade incontornável em se tornar “freguês”. Depois de conhecer o restaurante A Charrette, a sua lista de destinos gastronómicos ficará seguramente mais rica.

Nota: Como há várias especialidades da casa que nem sempre estão disponíveis, caso o seu “desejo” aponte para um prato em particular, será melhor contactar antecipadamente o restaurante para evitar deslocações em vão.

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Restaurante A Charrette

Rua Doutor Samora Gil, 30-34

8550-461 Monchique

Tel.: 282 912 142

Email: restaurantecharrette@hotmail.com

Horário: das 10h00 às 23h00

Encerra à quarta-feira

Capacidade para 85 pessoas

Aos fins-de-semana e feriados recomenda-se reserva antecipada

Não fecha para férias

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