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O que ver

Zé Pataco, uma casa onde se acarinha a gastronomia beirã

Zé Pataco, uma casa onde se acarinha a gastronomia beirã
Fevereiro 27
08:45 2017

Nos compêndios e edições da especialidade, há uma repetida evocação que sustenta a ideia em que nas Beiras se come demasiadamente bem, na companhia de generosos vinhos e onde quase sempre se paga muito pouco. Embora os tempos sejam outros e o desenvolvimento gastronómico também aqui tenha chegado, contribuindo para que alguns espaços tenham encerrado por dificuldades de adaptação, a verdade é que a região beirã é mesmo especial.

Existem excelentes templos que, em troca de um quinhão de poucos euros, se podem revelar em experiências gastronómicas dificilmente superáveis. Não menos verdade, e tal como em qualquer outra parte, há também espaços merecedores de especial atenção; um deles é o restaurante Zé Pataco, instalado em Canas de Senhorim.

Aberto ao público desde 1977 pela mão de José da Costa Santos, o restaurante Zé Pataco resulta da experiência acumulada do seu fundador em vários hotéis e restaurantes da região. Começando por ser um pequeno snack, particularmente apreciado pelos trabalhadores das Minas da Urgeiriça e da Companhia Portuguesa de Fornos Eléctricos, rapidamente fez furor junto da população da região, o que impôs a introdução constante de melhorias, culminado, já em 1998, com a mudança para as actuais instalações.

Exterior do restaurante Zé Pataco

Exterior do restaurante Zé Pataco

Constituído por um restaurante, um salão para eventos e um jardim com interessantes recantos, acompanhado por uma relva imaculadamente tratada, o complexo é nos dias de hoje também muito utilizado para festas e banquetes.

O restaurante é constituído por duas salas contíguas, ambas de grande dimensão, sendo que a segunda só abre quando a primeira se encontra repleta e a afluência é elevada. No interior, que é desafogado e sem grandes obstáculos naturais, as paredes são construídas por enorme blocos de granito e os tectos, totalmente forrados a madeira, assentam sobre uma complexa estrutura de traves, também utilizada para suportar o extenso conjunto de candeeiros de ferro forjado. Sobre as portas, existem cortinados de cores garridas – vermelho, amarelo e verde –, quase como que a representar as cores nacionais.

De destacar ainda a existência de uma parede totalmente construída em tijolo de vidro, à direita da entrada que, embora em dias encobertos não tenha a finalidade para que porventura foi arquitectada, em dias de sol seguramente representará um elemento importante na luz natural que invade o espaço.

As mesas de madeira rustica, tal como as cadeiras, dispõem de dimensões abundantes e apresentam-se revestidas por toalhas de pano imaculadamente branco.

entrada-queijo-fresco

Entrada de queijo fresco

Já sentado, enquanto se ambienta à luminosidade do espaço e vagueia sobre o extenso rol de opções que o cardápio tem para lhe oferecer, poderá mordiscar uma das variantes de pão – centeio, sementes e broa – disponíveis no cesto que lhe acabam de trazer, bem como entreter o ímpeto voraz do seu estômago com uma verdadeira morcela ou chouriça beirã.

Para os menos convencidos com os produtos do fumeiro, estão disponíveis opções como as excelentes amêijoas à Bulhão Pato, o camarão gigante na plancha ou um delicioso queijo fresco, temperado com azeite, orégãos e alho bringido. Este último é um tanto inesperado, mas recomenda-se e é uma verdadeira delícia.

Os mais sensíveis à pujança da gastronomia beirã poderão começar por forrar as paredes do estômago com uma canja de galinha do campo, servida em prado de grandes dimensões, com fundo em forma de ovo e na quantidade que lhe prouver. Rica em gordura, mas não em excesso, e em abundante carne e miúdos, que revelam a origem do animal, o sabor é forte e carregado de recordação, a fazer lembrar os tempos da infância e da sopa da avó.

Passando para os principais, poderá começar pela cabidela de galinha do campo, uma verdadeira iguaria que só por si vale uma visita à casa de José Santos. Confeccionada com sangue e animais provenientes das quintas da região, facto confirmado pela rigidez e gosto característico da sua carne, a cabidela é apresentada em doses fartas, com arroz suficientemente malandro e com um toque a vinagre que se aveluda na boca.

O entrecosto assado, no ponto em que permite preservar toda a suculência e sabor de uma carne com excelente qualidade, é acompanhado com arroz de feijão, com sabor e cremosidade dignos de nota positiva, mas onde a leguminosa talvez merecesse um pouco menos de cozedura.

Entrecosto

Entrecosto

De destacar ainda um dos pratos mais representativos da ementa: a sola à Zé Pataco. Trata-se de um enorme naco de carne grelhado, a escolher na versão vitela ou porco, servido com batatas fritas e salada ou, caso seja da sua preferência, com batatas a murro cobertas com um molho especial. O cabrito à Padeiro ou a Vitela na Caçoila são outras opções a merecer a sua atenção.

Nos pratos de peixe que pertencem à lista fixa, há uma predominante utilização do bacalhau que, além das tradicionais versões assado na brasa ou cozido, pode ser degustado nas versões Zé Pataco, com Broa ou Chora do Mar – prato composto por suculenta e deliciosa massinha de línguas de bacalhau. Tudo excelentes formas de saborear o “Fiel amigo”. Para os apreciadores de outros sabores do mar, estão disponíveis opções que passam pelo polvo – a confeccionar de diferentes formas –, o robalo, a dourada, o salmonete, o pregado ou vários mariscos, tudo com frescura condizente e a fazer esquecer que a lota fica a pouco mais de uma centena de quilómetros.

A lista de vinhos, com particular destaque para a região demarcada do Dão, não é muito extensa em quantidade, mas inclui algumas preciosidades que farão sorrir o Deus Baco. O vinho da casa, que é produzido na Quinta do Sobral, em Santar, é encorpado e de sabor acentuado, sendo suficientemente competente para acompanhar o prazer prolongado da experiência gastronómica.

sobremesa

No capítulo das sobremesas, na sua grande maioria confeccionadas dentro de portas, mas talvez um pouco longe dos predicados de outras iguarias, não existem nomes que remetam a curiosidade para os segredos do mestre doceiro mas, ainda assim, estão disponíveis algumas guloseimas típicas da região: o requeijão com doce de abóbora, o pudim de ovos, o leite-creme ou o bolo de bolacha. Poderá, contudo, optar por nomes com maior exotismo e que rementem a gula para destinos além-fronteiras; exemplo disso é o tiramissu, os profiteroles com chocolate ou a panna cotta de frutos do bosque.

Com as suas doses fartas, sempre suficientes para duas pessoas, há que salientar a excelente qualidade dos produtos, sobressaída pela culinária simples, mas extremamente competente e seguramente com uma das melhores relações preço-qualidade do distrito de Viseu. Quando pedir a conta prepare-se para uma boa surpresa, pois não pagará além dos 15 euros por pessoa. Seguindo a máxima de “Servir bem e bem receber”, preconizada pela equipa que lidera o restaurante Zé Pataco, acredite que a experiência merecerá cada minuto do seu tempo e cada garfada levada à boca. No fundo, tudo excelentes razões para o deixar preso na cadeira por um bom par de horas.

Zé Pataco

Rua do Comércio, 124

3525-052 Canas de Senhorim

Telef.: 232 671 121

Email: restaurantezepataco@gmail.com

URL: http://www.restaurantezepataco.com

Horário: das 09h00 às 02h00

Encerra à terça-feira

Aos fins-de-semana e feriados recomenda-se reserva antecipada

Fechado para férias de 1 a 15 de Setembro

Sobre o Autor

Agostinho Mendes

Agostinho Mendes

Assim que atingiu a maioridade, informou a família que queria viajar e conhecer o mundo, mesmo que a sua vontade não fosse aprovada. A paixão pela arte de andarilhar já o fez passar por mais de 50 países em vários continentes. Em viagem, procura experiências intensas que já o levaram a viver com nómadas na Mongólia, famílias mosuos na China ou em aldeias nos Himalaias. É fotógrafo (http://www.agostinhomendes.com) e faz trekking.

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